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A origem da carne, o novo filão explorado por uma empresa do Sul de Minas

Em tempos de vaca louca e de gado sendo engordado à custa de desmatamento e de trabalho escravo, ou, o que é pior, de anabolizantes que deixam o freguês falando fino, garantir a procedência e a qualidade de um suculento filé mignon, ou de uma peça de picanha pode significar mais que conquistar mercado dentro e fora do país para fazendas e frigoríficos. Conhecer a origem da carne, desde o nascimento do bezerro até o produto embalado no supermercado, também é um excelente negócio que está apena começando no país.

Uma das empresas que percebeu esse filão é a Safe Trace. Localizada em Itajubá, no sul de Minas, desde o ano passado tem seu sistema de rastreamento utilizado pela cadeia de Supermercados Verdemar, de Belo Horizonte e pela rede Super Nosso, também na capital, a partir deste ano.

O potencial do negócio é enorme. Até o momento, a Safe Trace e sua sócia FIR Capital (empresa de investimentos de Belo Horizonte, que tem como sócios fundos de pensão poderosos como o Funcef, da Caixa Econômica Federal e a Previ, do Banco do Brasil) já investiram R$3 milhões até 2011. O retorno esperado é de R$85 milhões nos próximos cinco anos.

CHIPS E CAPSULAS. De acordo com o direto executivo da Safe Trace, Vasco Varanda Picchi, o sistema de rastreamento desenvolvido por sua empresa foi pensado a partir de um dos grandes problemas enfrentados pelos frigoríficos: por ser uma linha de desmontagem, os abatedouros não conseguiram manter o vínculo entre o animal que chegava e a peça de carne que saía para ser comercializada, muito em função da dinâmica do processo.

A solução para o problema, segundo Picchi, foi adaptar a tecnologia que o seu sócio Francisco Biasoto, pesquisava em 2005, quando ambos estudavam na Universidade Federal de Itajubá (Unifei): a radiofreqüência (RFID), a mesma utilizada no pedágio "Sem Parar", na qual o chip do carro é lido antes de passar pela catraca. Nos primeiros meses de vida o animal recebe um chip, que pode vir na forma de um brinco eletrônico, ou engole uma cápsula de cerâmica de quase sete centímetros. Francisco Biasoto explica: "O boi passa então a ser monitorado por radiofreqüência até ser abatido. Dentro do frigorífico, as informações da cápsula são transferidas para cartões magnéticos que identificarão cada peça de carne cortada. Na entrada da sala de desossa os dados do cartão são enviados para uma etiqueta com o código de barras, preparada por nossos funcionários, identificando os produtos embalados que irão para as prateleiras dos supermercados".

Para saber todas as informações sobre cada animal, técnicos da Safe Trace vão, a cada quatro meses, às fazendas para fazer, utilizando antenas, a leitura dos dados. "Desta forma, é possível saber a origem, o sexo, o peso, as vacinas recebidas, os donos, por onde pastou e até suas parceiras amorosas", informa Picchi.

VERDEMAR ATESTA. O negócio,no entanto, não se restringe aos supermercados. Segundo Vasco Picchi, as fazendas e os frigoríficos estão cada vez mais interessados em ter seu produto rastreado como forma de ganhar mercado, tanto no Brasil quanto no exterior: "Os fazendeiros precisam de uma empresa como a Safe Trace para confirmar o cadastramento de sua propriedade no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), comprovando que a fazenda não é fruto de desmatamento. Os frigoríficos estão sendo obrigados pelo mesmo governo a comprar a carne dessas fazendas e o varejista tem a fiscalização do consumidor e um grande potencial de crescimento das vendas, caso faça o rastreamento de toda a cadeia".

Marcelo Costa Rievers, gerente da Bull Light, selo de carnes do grupo Verdemar, destaca que a implantação do rastreamento propiciou o aumento das vendas de cortes bovinos em 20%: "O processo é rigoroso e conta com a confirmação, por DNA, das informações de origem". Além da garantia de procedência e qualidade do produto, a Safe Trace tem uma política de respeito e proteção ambiental: "Isso significa que a empresa não realiza seu trabalho junto a propriedades que participem de desmatamento da Floresta Amazônica, ou que possuam qualquer prática de agressão ao meio ambiente", destaca Rievers.

Rastreamento, a conquista do mercado da carne

O mercado externo está cada vez mais exigente com a carne comprada do Brasil, principalmente depois do surto de febre aftosa, registrado em 2005. Hoje, apenas 1.800 fazendas brasileiras estão habilitadas a exportar carne bovina para a União Européia. Este número já foi de 20 mil: "Por isso estamos focando nossa atuação também nos frigoríficos e fazendas, que começaram a demandar esse serviço. Atualmente, temos cinco equipes de técnicos, que conseguem registrar até dois milhões de animais por mês", informa o diretor da Safe Trace.

Em 2009, Minas Gerais produziu de um milhão de toneladas de cortes bovinos, dos quais 81 mil foram exportadas principalmente para a União Européia, Rússia e Japão. Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Minas Gerais (Sinduscarne), Eurípedes José da Silva, o Brasil, como maior produtor mundial e principal exportador de carne bovina, não pode abrir mão do processo de rastreamento, que veio para ficar: "Caso contrário, podemos ter o nosso produto novamente embargado, como aconteceu em 2005, com o surto de febre aftosa.

Esse cenário, segundo o presidente do Sinduscarne, está mudando para melhor. Em março deste ano, uma missão do Escritório de Alimentação e Veterinária da União Européia (FVO, na sigla em inglês) esteve no Brasil para visitar frigoríficos e propriedades rurais habilitados a exportar carne bovina in natura para os países do bloco europeu. Para o chefe da missão, Jorgen Alveen, as visitas permitiram concluir que o Sistema Brasileiro de Certificação Sanitária dá garantias quanto ao registro, controle, identificação e inspeção dos animais e seus produtos.

Em relação aos frigoríficos visitados, Alveen afirmou que os controles nos estabelecimentos, especialmente a inspeção antes e post mortem e o rastreamento da carne, estavam sendo realizados de acordo com os requisitos europeus. A missão da União Européia visitou nove propriedades em seis estados: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Para o secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, Francisco Sérgio Jardim, a avaliação dos representantes do bloco europeu mostrou o restabelecimento da confiança no sistema brasileiro de certificação sanitária: "Sempre trabalhamos para cumprir os acordos firmados, o que nos confere a credibilidade dos 180 países para os quais exportamos produtos agropecuários".

Fonte: Revista Fato Relevante
Data: 19 de Novembro de 2010

Última Atualização em 26 de novembro de 2010
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